Pode parecer piegas no início como também achei, mas o fato foi tornando-se cada vez maior:
Estava eu andando desoladamente pelas ruas da minha cidade fazendo compras, gastando desnecessariamente meu dinheiro com o intuito de aliviar a angústia do meu coração, a sensação de solidão, inutilidade e esquecer os erros do passado que causaram a consequência desta minha vida atual, quando notei que numa banca de vendas de cds tocava uma música que dizia assim: "Senhor, eu sei que tu me sondas, senhor, eu sei que tu me amas..." e foi bem rápida a sensação, mas me senti por um momento observada, porém esqueci e segui. Entrei numa loja para ver uma vitrine, e uma música soava em todo o espaço do ambiente (memorizei o refrão) "E mesmo se vier noites traiçoeiras e a cruz pesada for, Cristo estará contigo, o mundo pode até fazer você chorar, mas Deus te quer sorrindo..." Percebi que eu não olhava mais os sapatos na vitrine, olhava para o meu próprio reflexo no vidro com os olhos marejados; respirei, agradeci o vendedor e sai fazendo compras para me distrair pelo resto da tarde, quando desci por uma rua que daria numa praça chamada "Fonte" conhecida pelo palco de shows com uma linda fonte d'águas pseudo coloridas. Ouvi uma música se aproximando, parecia Blues. Enquanto eu me aproximava da praça, o som tornava-se cada vez mais alto invadindo meus ouvidos e meu espírito. Fui tomada então por uma emoção enorme vendo a negra maravilhosamente linda que cantava como Diana Ross, Mary Wilson, Florence Ballard e Gloria Gaynor juntas, e vendo o coral e a banda de Soul num todo em sua força e essência, lá permaneci. Atrás do palco o pôr-do-sol em cores mágicas de amarelo, vermelho num céu azul claro e misturas de tonalidades que se transformavam numa cor de laranja-ouro eram mágicos. A negra maravilhosamente linda cantava "Oh happy day" com toda a força do seu Soul, cantava when Jesus washed, washed my sins away! De repente uma pomba branca veio de longe voando no céu, pairou e parou encima de uma lâmpada. Vigiou ou contemplou a praça, as pessoas e os músicos por um tempo, até que desceu e quando ela desceu, pareceu que meu coração triste e quebrantado estava sendo de alguma forma tocado por uma mão. Não consegui ficar em pé, fui tomada por uma emoção imensamente pura e poderosamente forte que veio de dentro de mim, de um lugar tão profundo, tão íntimo, que desconheço. A pomba branca parou no palco e lá ficou rondando... Era a última música do show. Foi uma das imagens e momentos mais belos que já tive. O pôr-do-sol mais belo que já vi. A música, o voo daquela pomba não era banal. Não consigo parar de pensar no que seria o espírito santo. Não cabe dizer agora em quê acredito ou desacredito, porém sei o que senti. Eu tão descrente da vida e de mim, desolada nessa tarde solitária, recebi um presente através do que mais amo no mundo, a natureza e a arte. Senti que fui observada, acompanhada e abençoada. E sinto que não estou só. Minh'alma ecoa... Oh happy day, when Jesus washed, washed my sins away...
Nem imagino o motivo de estar aqui pensando sobre sua passagem em minha vida.
Ultimamente não consigo olhar-te, encarar-te; desvio o olhar dos seus olhos cor de mel talvez por covardia em saber que você agora sabe tanto sobre mim, ou talvez coragem de evitar alguém tão perigoso!
Na mesa do bar, você e eu, onde nada era tão mais perfeito do que nossa camaradagem e admiração pelo outro naquela tarde. De fato como você disse: "Algumas pessoas entendem". Você falou sobre a providência, querido filósofo. Entendo que dentre tantos tamanhos motivos você vir da Europa também foi para transmitir-me algo de válido sobre Deus e a vida por um período somente, e depois seguirmos nossas vidas separadamente. Gosto de você, não como um homem, mas como um amigo expansivo que tanto preciso. Você não precisa de mim, ex-sacerdote, ofereceu sua amizade e se doou, mas pareceu caridade; embora ressaltasse e enfatizasse descaradamente seu interesse por minha pessoa. Rapaz refinado, charmoso numa mescla de parecer gay com um acadêmico antiquado. Um menino descobrindo a vida depois da liberdade da clausura. Desventurado, senti ciúmes sim, confesso, porém não te desejo como homem. Talvez desejasse um dia, num futuro ou num ontem. Nunca seria. Mente perigosa, rápido como um felino! Quero sua amizade como uma brisa suave no calor do deserto da nossa rotina. Quero sua amizade como um alívio naquele lugar. Quero-te como amigo, porque te quis. Nestes dias indecisos, fica ao meu redor neste período que acabará, pois logo seguiremos nossas rotas em caminhos distintos. Peço-te somente para estar perto de mim, santo-sado, esteja neste tempo que já finda... ao meu lado. Período, atividade e local atribulado em minha vida. Tati Sales ...
Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor
Te levo pra festa e testo o teu sexo com ar de professor
Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor...
Confundo as tuas coxas com as de outras moças
Te mostro toda a dor
Te faço um filho
Te dou outra vida pra te mostrar quem sou
Vago na lua deserta das pedras do Arpoador
Digo 'alô' ao inimigo
Encontro um abrigo no peito do meu traidor
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor...
Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou
Vivo num 'clip' sem nexo
Um pierrot retrocesso
meio bossa nova e 'rock'n roll'
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor...
Hoje estou numa espécie de anestesia vital, talvez um coma emocional, como uma desistência simultânea da alma, corpo e raciocínio. Prefiro hoje não intervir, não interferir em nada.
Também optei não rimar, mas apenas desabafar longe do mundo em sua convivência com as pessoas, e longe da vida em seus exaustivos movimentos do desespero de ser mais um e melhor. Hoje não quero nada. Nem atingir metas no trabalho, nem satisfações ao namorado. Hoje não sou nada. Num inexpressivo invisível sem estereótipos do que sou, ou do que eu deveria ser e/ou ainda do que eu poderia ser. Nada. Sem distinção ou compreensão. Hoje assumi o fracasso e de repente sei que nada é e será como deveria ser. Sem esperanças, somente um choro na garganta que não sai. Tudo é decepção, de mim para com o mundo e do mundo para comigo. Hoje não quero nada, nem responsabilidade e nem liberdade. Nem expectativas de futuro, nem lembranças do passado... E, agora neste instante tento me mover o menos possível para não estar no presente. Se possível fosse não viver, mas como dizia um ex: Sístole e diástole... Sístole e diástole... Por que bate tão rápido o meu coração? Será melancolia, taquicardia, disritmia ou agonia? Depressão? E me recomendo calma... Há uma opção, mas tenho medo da dor e punição. A misantropia aumenta a cada dia, e chega ser cômica a minha hipocondria. Queria não rimar, mas a poesia corre em minha artéria, a pulsar etérea sina. A rima... Só estou numa morte parcial da vida, só quero que me deixem sozinha, não estou deprimida e nem me alcoolizando com a íntima e ínfima bebida. Só me deixem neste hoje em paz, somente hoje, neste hoje... Que eu transformei num jaz.
Fecho meus olhos cinzas para imaginar algo de bom, Algo que alivie a minha angústia terrível da existência. Fecho meus olhos cinzas e vejo e ouço a cor do som, E vejo uma Baleia Azul nadar além da consciência... Essa Baleia Azul tem imensos olhos verde-claros, Estou à beira da praia e ela vem em minha direção. Olho para o céu e meu nome é escrito com um raio, É um raio igual caneta e a escrever Tatiane, uma mão. Essa enorme mão que segura raios e escreve em céu, Tem no dedo um anel d’estrela como um raro diamante. O anel se compara às estrelas presas naquele escuro véu, Que nos cobre em breu à noite anéis d’estrelas de brilhante. Fechando meus olhos vejo e escuto o grande oceano-mar, De transparência pura e límpida, tal qual pureza de um Anjo. Junto com o som das ondas escuto um suave hino ressoar... E a Baleia Azul acompanha o Anjo num dueto o belo canto. Agradeço por esses presentes que eu tanto precisava, É a poesia que faltava nos meus dias tão vazios. Caem lágrimas puras e límpidas tão iguais a água clara, Dos meus olhos e do céu chovem gotas d’água e lírios...
Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
P'ra que eu fotografe assim o meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
P'ra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente mas eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava
Ele vai deixá-la, eu sei... Vai abandoná-la sem piedade, Por ela não ter mais aquela idade... Por ela não ser mais perfeita, Não ser bela como a princesa E por não mais exalar flores como a natureza. Se o seu aroma fosse de rosas E os seus lábios, rubros, e formosa, Se os seus cabelos fossem doirados E tranças longas recendendo, Em véu pela torre irias descendo... Tatiane Sales (Minha poesia) ...
"Ser não é somente pensar, ser é agir o pensar. Ser é criar a ideia depois de imaginá-la, senão a arte se perde. Assim como a bondade está no ato de ser bom, pois bondade sem ação é descaso. Quando não há ação, a ideia e o sentir se perdem...".
Quis-te até mesmo quando eu não queria, Mesmo quando eu não te conhecia, O tempo todo eu te pedia. Chamava-te nos sonhos sem saber seu nome, Vi-te em devaneios sem distinguir, sem rosto. Só percebia os gestos finos e a postura nobre... Eu senti seu cheiro doce no vento da tarde, No frescor do outono que a brisa trouxe. O seu corpo eu via nas formas do tempo, Que o vago mostrava que algo me faltava. Quando eu te neguei foi por medo apenas, Quis te perder antes que eu meu perdesse... Mas tudo o que eu quero foi colocado em ti, Tudo o que eu preciso para ser feliz. Desde os seus cabelos ao seu corpo alvo, Fascina-me o seu sorriso, amo quando ri... Sua voz é suave até quando não fala, No silêncio cheio de você me cala... E quando cantando tão sutil demonstra, Que por mim se importa, seu cantar me toca. Ao tocar seu canto o meu corpo sente Deveras sintonia de coração e mente, De música e Arte, De tudo, somente...
Ouvindo o seu preferido, Sebastian Bach... Numa noite de sábado fria com luar. Há uma augusta virtude na Rua Augusta andar Com um senhor tão intrigante pela madrugada a vagar. E numa mesa de bar, filosofar... Uma mera de ternura me tem aquecido e encantado Com suaves lembranças a recordar. Em minha memória uma madrugada fria, mas aquecida, Interessante a lembrar...
Quando eu te encontrar no mar azul da felicidade, Quando você me achar em meio à contrariedade, Quando você desembarcar em rumo prol desta cidade, Encantar-me-ei da vida e farei do sonho, realidade, De ver na vida sentido num mundo de iniquidade, Saber que Deus ainda existe e que no escuro há milagre...
E todas essas folhas dos livros e outonos Serão tristes e voarão fugidias pelas tardes Porque longe não posso chorar sobre seu ombro Que entende o meu pranto dessa intensa tempestade.
E todas as auroras das manhãs quando eu acordar Serão tristes nos anos da maldita eternidade Porque longe não posso com um beijo te acordar Que entende os meus lábios delicados de saudade...
E todas essas músicas que do piano irão fluir Serão tristes e soarão como gemidos pela casa Porque longe minha melodia você não poderá ouvir Que entende a dor do que carrego em minh'alma...
E todas essas noites estreladas com luar Serão tristes no vago guardado na memória Porque longe não posso sua mão branca segurar Que entende ao tocar minha poesia merencória...
E todas as viagens que eu fizer em meio ao mundo Serão tristes e incompletas imagens de fotografia Porque longe não posso ver no seu olhar profundo Que entende os meus anseios de arte e filosofia!
E todos os desejos do meu corpo e meu amor Serão tristes e nobres torrentuosos como o mar Porque longe não pode sentir o meu calor Que entende a odisseia que seria te amar!
E todos os caminhos que eu trilhar em minha vida Serão tristes e sombrios sem entender qual foi o erro Porque longe não podemos passar juntos nossos dias Que entende o desencontro de duas almas em degredo...
Ela me atrai com a sua cor castanha,
E seu mistério negro a obscura estranha.
Sei que ela está lá fora, pálida e branda,
A noite solitária pela amante chama...
Por companhia, por desejo, pela bela clama.
Então fujo na noite que igual a mim leviana,
Funde-me o corpo quente, mescla, ufana,
E o relento refresca minh'alma em chamas!
Amálgama libertinagem, duas párias damas,
Libidinosas lésbicas confidentes tramam.
Ao perder-me na noite a noite me ganha,
Envolvendo e seduzindo me corrompendo engana.
Ela me toca, me sussurra no ouvido infâmias,
Sacio-me da noite impura dessa mulher insana.
Ela me excita, porque me incita como uma tirana,
Entrego-me a ela e supro-a como uma profana...
Tatiane Sales (Minha poesia) ...
A dama da noite desabrocha uma vez por ano e após o desabrochar, morre.
Minha fé resumia-se encontrar um Deus para culpar. Eu precisava justificar a ínfima vida que levava, blasfemando o seu nome nas penumbras e noites de tormenta; eu o condenei.
Ouvia falar de um Deus austero, mas eu me negava crer num Deus preconceituoso que pune as diferenças; eu o recusei. E na busca me apresentaram um Deus bondoso, que perdoa até as piores das falhas; eu o lamentei. Mas na escuridão medonha em que senti dores terríveis de medo, de frio, desesperada e desgraçada, sozinha na tempestade, num raio eu supliquei; e dele precisei. Filosofei, pensei em Deus e percebi que ele era uma idéia poderosa e vingativa para uns, uma idéia bonita, sublime e cômoda para outros, de acordo com suas necessidades e conveniências; eu o questionei. Anulei o Deus que criamos e comecei a descobrir o Deus que me criou. Ele estava em mim cercado e ocultado por idéias, conceitos e tradições; à medida que eu as removia, eu o descobria... E em mim, o encontrei. Tatiane Sales (Meu poema)
"Ouvi um sábio dizer: Peguei a estrada menos usada, e isso fez toda a diferença cada noite e cada dia...".
Ah! Angústia... Angústia... É uma mão vinda do limbo, que atravessa meu peito e aperta meu coração desta forma! Vinda do inferno deste próprio mundo, onde pessoas machucam como pecados do qual sou punida e tenho que pagar. Do inferno do Universo que há em mim, que não posso pôr para fora, porque ninguém entenderia. Da maldição do que meu ânimo permite-me ser, pois cada movimento meu é calculado, como abrir a janela pela manhã e fazer o café matinal, puxar a maçaneta da porta e sair. Ultimamente nada me emociona, apaixona ou surpreende, exceto a paisagem artística da criação de Deus... E o som, a música linda que algumas vezes consigo ouvir intrínseca na poluição sonora. Ah, mas o homem! Se as escrituras bíblicas são de fato; criação em que o próprio Deus queimou em Sodoma e Gomorra, afogou no dilúvio, perdoou em Cristo e condenou em Apocalipse! Se o próprio Deus desiludiu-se e se decepcionou com o homem, por que eu devo aceitar o ser humano? O meu gênio não é, porque minha amotinação é; no limbo do meu desânimo em viver que impede de ser o que sou naquele meio. É uma sensação de que não vale a pena expor mais. Hoje presenciei a podridão, o cinismo, a putrefação do caráter! Ser? Querer aceitação? Sou nesse inferno o que é ser diferente desse inferno. Vejo pequenas e grandes maldades, que no final terão a mesma dimensão. Como é difícil sentir o que sinto, ver da forma que vejo e o pior, ouvir das pessoas o que ouço! Ultimamente tenho falado pouco, observando e escutando. Se possível fosse eu não existir, desta forma o faria e nada seria, não lá. Onde estão os bons homens? Essa mão ultrapassa meu peito, aperta-me o coração, mexe com meus órgãos internos adoentando-me, e ainda tenta tocar meu espírito com o intuito de macular-me, corromper-me. Sigo na mera irrelevância pacata de sobreviver da forma certa, ou ao menos e somente continuar vivendo, tentando de alguma forma fazer diferença agindo com bondade. Só que de fato como li, meu ato não será entre mim e os homens, e sim entre mim e Deus. Consola-me pensar assim... Sigo, mesclando numa miserável nobreza, numa misantropia gentil. Mesclando em desejar morrer, mas continuar vivendo e tolerando... Num limbo tolerando. Tatiane Sales (Minha melancolia) ...
Flores rosas e anis... Num jardim de âmbar gris, Tu colhias tão feliz E o espinho por um tris Não ferira-te o nariz! Quando cheiraste a flor de lis, Sentindo o aroma da raiz. Foi justo ela quem não quis, Que os espinhos danos vis Te sangrassem tão hostis. E os cortes pela lis, Contigo foram gentis. Para que nessas noites febris, Criando poemas com giz Tu não rimasses em versos que maldiz, Que o jardim de sonho em Paris É mais belo que as Campinas juvenis Em que tu nasceste e cresceste Mas que o fizeste tão infeliz... Tatiane Sales (Minha poesia) ...
Sophia quando pequena Fitava pela janela Pálida que dava pena Sol não tocava a pele dela. Em meio à estampa de flores Da delicada cortina Soprava ao vento os odores Do perfume de menina, Que aos poucos ia crescendo Num corpo desabrochando Por trás d'um vidro vendo A vida passar pelos anos. Moça brotando beleza No auge da juventude em flor Não saiu p'ra exalar natureza Não viveu p'ra morrer de amor. Da janela observando Achava tudo sem sentido Esse vai e vem de humanos Que se tocavam e não temiam perigo. Ela olhava e tentava entender Toda aquela erupção de libidos Uns aos outros que se faziam sofrer E que num caos se amavam aos gritos! Tatiane Sales (Minha poesia) ...
Sinto um frio doentio Choro todas as noites Eu tinha tantos sonhos nobres E hoje o que restou? O que sobrou? Quantos anos me escondi Em mim... Quanto tempo nada fiz Diz? Tranquei-me num mundo à parte Não desenvolvi minh'arte Só dormi é o que me lembro Chorei bastante, um choro lento. Também sofri angústias noites Ouvindo o vento vindo do norte Eu desejava um sopro da morte E aliviava quando eu dormia A vida fria, os sonhos aquecia... Joguei tantas poesias ao léu Rasguei folhas, queimei papel. Livrei-me do que de melhor havia em mim Tantas mortes pensei, Tantos erros lembrei... A morte é a forma mais honrosa de um fracassado redimir-se? De um covarde ter orgulho? É a nobreza de matar-se e superar-se! Tatiane Sales (Minha poesia)
Naquele teatro Contracenei num tempo errado Em que a circunstância oculta Dentro de mim a insana luta De querer ser somente eu mesma E esma, Transparecer por entre o breu Breu meu Deixei para ele meu endereço Mas cartas suas não mereço Uma semana e nada veio Só me aumenta o devaneio E me aumenta o desespero Para aceitar o derradeiro Mal começou e acabou Terminou Nem dois meses há na data Farsa Tudo por causa de um receio Que devo aceitar de enleio Que eu não passo de um nada! Decepcionei-o de fato Quimeras letras do meu ato Foi tão rápido... Uma luz piscou ao longe Onde? Foi tão intenso e ofuscante Um brilho claro e oscilante Que eu pensei poder tocar Pudera eu o alcançar Sou uma humana falha Fraca Sou um punhado de areia Que quis sonhar e ser do mar Sou imperceptível centelha Que quis tocar uma estrela Por trás do mudo Tudo O que eu queria era te amar. Tatiane Sales (Minha poesia) ...
Sinto-me aos poucos enlanguescer Passo os dias lamentando Se você estivesse me amando Nada disso iria acontecer. Estou a enfraquecer... Em mim o amanhecer desistiu Iludiu-me e, no entanto, Apesar de tanto rogá-lo em pranto Da minha vida partiu. Sinto-me agora entardecer... Lembro-me do seu rosto, do seu jeito Inteiro... E de ensejo Suplico um último desejo. Queria agora adormecer... Pois no sono posso ser pueril Feliz no devaneio febril E depois de sonhar com você Tranquilamente falecer. Não sei mais o que fazer... Não sei mais a quem recorrer Quem eu procuro para saber Como me restabelecer? Eu preciso reviver... Não posso terminar assim Alguém tem que dissipar o enleio Eu tenho que encontrar um meio De melhorar dentro de mim! Vejo o claro escurecer... Rimar... Rimar... Eu preciso me libertar Das amarras do sofrimento me livrar Para conseguir enfim, continuar. Sinto-me enlanguescer... E se você não me buscar Se você não me socorrer Nas trevas vou me afogar No mar da noite irei morrer. Já principio anoitecer... Tatiane Sales (Minha poesia) ...
A ilusão rendeu-me inconscientemente Em que supus por momentos estar contente D'uma forma ignota e tão demente Acreditei que seria diferente. E permiti você rondar-me em minha orla, Quando venci todo o preceito inerente... Isso talvez somente em minha mente No meu pudor, do meu recato oponente Inteira a ti me entregaria sutilmente Aproximava-me aos poucos delicadamente. Quando apaguei todas as mágoas da memória, Vi-te de costas caminhando lentamente... Quando achei que enfim seria a hora Despindo-me liberta dos receios Seria sua de alma aberta, em corpo inteiro Vi-te seguindo irredutível indo embora. Então sorrateiramente Justamente nessa hora? Ao beijar-te docemente Você reflete e vai embora? E ao meu lado fez-se ausente, Justamente nessa hora... Quando eu tocava as suas notas Em suas mãos brancas e pedintes Momento etéreo de requinte Eu seria toda sua Em forma totalmente nua... Superando os meus limites Sem perceber eu permitia Aos seus olhos ilegíveis Envolverem-me em demasia. Perdendo-me em devaneios A você eu me rendia... E eventualmente A vingança paciente Exacerbou-se indolente. De meus maus atos passados Por eu ter tanto o desprezado Em meu descaso involuntário. E evidentemente, Você mirou para o contrário E me deixou, intemerato, Finalizando o último ato. Tatiane Sales (Minha poesia) ...
Numa praça de alimentação de um shopping vejo o motivo para o qual nascemos. Comer. Suprir-se. Abstrair-se. Todos estão satisfeitos, mas... poucos estão felizes, noto. Portanto, o que falta? Logo a minha primeira tese torna-se errônea. É preciso de alguma forma dar, doar o que temos, oferecer algo de bom em nós para nos sentirmos de fato felizes numa troca de valores e de sentidos. Assim é o erro do abstrair que acontece na neurose dos relacionamentos modernos onde só queremos ter; amamos do outro, queremos do outro, saboreamos do outro, exigimos do outro, e não propriamente o outro. E em troca o que damos? A mania da pressa em que vivemos atualmente nos faz atravessar e invadir o tempo de outrem. Devemos respeitar a lei do espaço e tempo. A minha dúvida impera-me e replica: o que devo esperar? o que devo fazer? se eu agir estarei interferindo num caminho certo de alguém? estarei atrapalhando uma vereda reta em prol de uma saudade profunda minha, em prol de uma necessidade de ter, de um anseio de ver? Devo tentar? devo em vão tentar? A dúvida aflora impedindo-me de semear o que talvez poderia ser. Permaneço em silêncio. Sei que o motivo de minha dúvida me deixaria melhor agora, porque esse motivo tem o dom encantado de me deixar melhor. E todas as vezes que me comunico com esse ser de alguma forma, é como o mundo me dando um presente e dizendo: Fica feliz mocinha, pelo menos um pouco... E quando eu vejo aquele sorriso, e quando eu sinto aquele corpo ao meu lado, mesmo que somente no momento de um estar ao lado, eu agradeço a vida por esse raio de luz suprir a minha alma de ternura e me iluminar. Todavia, penso que esse motivo está muito ocupado sendo feliz agora, aprendendo a viver agora, e sem nenhuma necessidade de mim. Então eu prefiro não interferir e sigo, permanecendo em silêncio. T Sales
Como vai meu querido el grande da bela vida? El grande psicanalista-pianista, que me ajuda e inspira tanto, de fato mesmo distante desta mágica fábrica, lembro com muito carinho de ti, que tantas vezes me preencheu o vazio de questões e desalentos existenciais com suas palavras não somente generosas, todavia cheias de sabedoria. E não somente intelectuais, mas também duma filosofia de vida, me fazendo crer com esse seu otimismo naturalmente equilibrado, dentro do que é a realidade plena em seu bom e ruim, e do que posso ser dentro dessa. É inegável que encontramos na azáfama da vida, dentre tantas pessoas opacas que nada nos dizem de válido (ou talvez tudo seja válido p'ro bom e ruim), espíritos generosos, homens de bom coração, simples no ser e grandes no agir - como humanos, ora também na arte criativa. Diferenciais que nos iluminam e emocionam com sua sensibilidade, porém força de caráter e magnitude de opiniões quando se trata da verdade. Homens de honestidade e honra. Meu querido el grande, existem pessoas que parecem que saíram desses livros da Távola redonda, ou das histórias de Cervantes ou Alexandre Dumas. Existem pessoas como você, nobre, e entendo por que Deus ainda tem esperança no mundo. Você que tantas vezes me falou de Deus... É um enorme prazer tê-lo conhecido! Temos que dizer das nossas admirações enquanto há oportunidade, por isso agora o faço. Estou trabalhando muito como sempre, cometendo erros na vida também como sempre, porém aprendendo com o intuito de ser melhor evoluindo o espírito sempre. Praticando aquela paciência a desenvolver com o próximo, e perversos que me aparecem, o que não é fácil. Tentando sobreviver neste habitat social onde os fortes sobrevivem. No geral estou bem, não muito forte, mas seguindo aquela linha do raciocínio otimista (mesmo não sendo) de que "melhor andar devagar do que parar". Sei que preciso evoluir muito, a vida me cobra independência e dinamismo, que (estranho) antes me sobrava. Não sei se evoluir é realmente mudar, no meu caso seria voltar a ser muito do que na juventude fui; mais impulsiva e destemida, e talvez esteja na essência, sei lá, talvez volte. Há virtudes em mim que não quero perder, como a da beleza daquele sonho ao longe, daquela esperança em tudo e que não tem fim... Mas e você? Ainda sai para ver o céu mesmo nos tumultuosos dias? Como vai a nova vida junto à sua bela musa aveludada? Ainda mora no sobrado em frente àquela bela praça que você um dia descreveu? Eu... talvez tenha encontrado finalmente a flor azul que comentávamos. Um grande abraço, el grande!
Estarás en mi corazón siempre. Como você me chamava, a pequenina Gioconda.
Ao passo que relendo o que não vejo Conjecturando situações que me receio Divagando sobre histórias não contadas Eu te tive e te perdi em meio ao nada.
Quando te vi em noite escura e fria, pálido Donde as luzes da cidade te ofuscavam Encontrei-te antes mesmo de achar-te A intuir um mesmo espírito de Arte.
E tentando interpretar o que me veio De uma timidez talvez ou de um recato Natural... Entendo-me e me aceito Não me fazer de peça, cena ou ato.
Talvez não fosse a hora nem momento De te encontrar no onírico das nuvens Se eu pudesse preparar-me um pouco, ler-te Eu não teria cometido o erro ao ver-te.
Mas um erro só porque fui eu mesma? Ser sincera em meus instintos condiz falha? Se me retraio sou Maria Imaculada, Se me entrego Madalena, tenta e pária!
Porém essa sou eu e a mim mesma Eu te fui, pressentindo algo a ler Não me fujo nem me traio no que sinto, Mas olho a rosa e essa sim, deve saber.
Prazer em conhecer-te caro amigo Do passado, de algum tempo, de outrora. Essa sou eu, porém em meu ser não se sabe Será que é cedo? Ou talvez já seja tarde...
Sou às vezes a virtude da mulher que inspira Às vezes menina doce de alma tranquila Mas e tu, quem és tu nobre sozinho O que te trouxe até mim neste caminho?
Derramai-me um pouco de ti e do que és Que sorverei junto à taça de Martini E conhecer-te-ei no ébrio da harmonia Da sua música e da sua poesia...